Frase da Semana

O ser humano é feito de besteirinhas...

Marisa Monte

No último domingo eu assisti o show de Marisa Monte no Tom Brasil. Foi uma aula de competência e profissionalismo. A começar por onde deve-se começar: o início. O show, marcado para às 19:00, foi iniciado às 19:04. Uma raridade nestes dias de hoje de muitos atrasos. Foi o público entretanto, acostumado a todos estes atrasos, que não cumpriu sua parte e foi chegando e se acomodando ao longo das primeiras músicas do show.

A primeira música foi tocada inteiramente no escuro, Marisa e sua banda escondidos nas sombras. Nos acordes finais da música, feixes de luz iluminam apenas o rosto de Marisa. Uma imagem bonita, poética, de uma beleza que se aproxima de uma divindade renascentista. Para a segunda música as luzes se acendem e aí o público faz feio. Impossibilitados de encontrar seu lugar na escuridão da primeira música, centenas de pessoas começam a procurar desordenadamente seus lugares. A cena chega a ser inacreditável: um mar de cabeças espalhando-se desordenadamente pelo mar de mesas. Durante todo o show Marisa e sua banda fazem um show que provoca um verdadeiro deleite auditivo, tantas são as sonoridades, os instrumentos. Tudo isto sem nenhum exagero estético: apenas um palco, uma cantora, uma banda e uma iluminação excelente. O brilho foi dado às verdadeiras estrelas do show: as músicas. E que músicas!! As melhores dos dois novos trabalhos, as melhores dos discos anteriores e as melhores dos Tribalistas. Não precisa de mais nada. Excelente.

O Coelho

Era uma vez um coelho. O coelho era livre e tinha toda a floresta como seu habitat. O coelho corria veloz de uma lugar para outro, banhava-se cada vez em um lago diferente, alimentava-se em uma vegetação nova e conhecia diferentes animais da floresta. O coelho vivia intensamente cada dia, cheio de realizações únicas. Para o coelho, o Hoje era sempre diferente do Ontem e do Amanhã, e o Amanhã era repleto de infinitas possibilidades.

Era uma manhã de primavera e o coelho saltitava despreocupado. Ao dar um salto um pouco maior ele caiu em um buraco fundo. Ao se recuperar da queda, o coelho começou a explorar o buraco e descobriu, maravilhado, um universo de coisas novas e belas. Flores e folhas que nunca tinha visto, pequenas frutas que nunca havia provado, pedras e cristais de um brilho nunca antes percebido, cores com as quais nunca antes havia sonhado. O coelho provava uma felicidade única.

Com o passar do tempo o coelho começou a sentir uma pequena inquietação. O coelho demorou um pouco a entender de onde vinha este sentimento. O coelho olhava para um pequena queda de água que tinha na parede norte do buraco e lembrava de uma cachoeira majestosa que existia na floresta. O coelho adorava ficar às margens da cachoeira acompanhando o nascer do sol, encantado com o barulho das águas, com o arco íris que se formava com o primeiro raio de sol e com o sentimento de integração à natureza que sentia quando sua pele era lentamente aquecida pelo sol. O coelho olhava para um pequeno arbusto que existia no buraco e recordava os tempos em que passeava por entre árvores gigantescas que subiam até onde a vista alcançava. O coelho começou então a se ressentir daquele buraco, a querer sair dali. Passou a não dar valor às inúmeras coisas bonitas que existiam no buraco, passou a pensar apenas em como sentia falta das coisas que estavam do lado de fora. O coelho foi lentamente perdendo a sua alegria e a sua vivacidade, tornou-se rancoroso e melancólico. Era acometido por pesadelos em que aquele buraco se tornava cada vez menor e mais sufocante, que todas as cores tornavam-se cinza, que as fontes de água que existiam no buraco secavam e deixavam tudo árido e triste. Nada era mais como antes, nada tinha graça.

Um dia o coelho percebeu que, em um determinado local do buraco, onde existia uma grande planta cheia de espinhos, ele poderia achar uma alternativa para escapar. O coelho olhou para a planta, analisou-a de todas as maneiras possíveis e conseguiu concluir que realmente ele poderia galgar aquela planta e sair do buraco. Entretanto, o esforço que iria empreender para subir seria enorme e a dor que sentiria ao passar por todos aqueles espinhos seria intensa. Um estranho sentimento de paz e tranqüilidade se apoderou do coelho. Ele começou a lembrar de tudo aquilo que existia no mundo exterior e de que ele sentia falta. O coelho passou alguns dias planejando o melhor caminho a ser percorrido até decidir que estava pronto para sair dali.

Era uma manhã de primavera, uma manhã muito parecida com aquela em que o coelho tinha caído no buraco. O coelho acordou e olhou com cuidado para o buraco e para todas as coisas que ele amava e que ficariam lá. Um sentimento de tristeza tomou conta dele. Ele olhou também para o caminho cheio de espinhos e antecipou toda a dor que sentiria ao subir aquele caminho. Por outro lado, ele ponderou a possibilidade de sua liberdade, de seguir seu caminho, qualquer que seja este caminho, pensou na possibilidade de voltar a correr livre e  buscar sua felicidade por toda a floresta. Um sentimento de paz se apoderou do coelho, um misto de saudade e expectativa. O coelho deu uma última olhada para o buraco, mirou o alto do caminho de espinhos e, decidido, colocou a pata direita sobre o primeiro espinho e começou sua jornada rumo à liberdade. Fixando com determinação o final do caminho de espinhos, o coelho colocou a segunda pata sobre os espinhos. Seus olhos brilhavam, o brilho das lágrimas e da esperança.

Esta história ainda não terminou. Estou torcendo pelo coelho... Pelos dois...

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