Escrever sempre foi um prazer para mim. Eu sempre fui uma criança que andava com um papelzinho amarrotado nas mãos para transcrever idéias e observações sobre o mundo. Na adolescência não foi diferente: instigado por professores brilhantes durante o Colegial, passei a escrever mais e mais.
As coisas mudaram com a Faculdade: o curso de Engenharia Civil na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, um celeiro de “geniozinhos” que viam o mundo como uma equação matemática. Foi neste momento em que perdi o prazer (ou teria sido a inspiração?) de escrever.
Conforme eu prosseguia pela Faculdade e posteriormente, ao ingressar no mercado de trabalho, eu era acometido por súbitos desejos de voltar a escrever. Estes lampejos, entretanto, nunca eram duradouros ou significativos.
É difícil precisar o momento em que isto mudou. Se eu pudesse arriscar, diria que foi quando comecei a fazer Teatro, há três anos e meio. O contato com textos incríveis, as discussões humanistas nas aulas e a oportunidade de assistir a montagens teatrais excelentes fizeram com que meu lado dormente voltasse a despertar. O Teatro criou esta chama e fez com que ela ardesse fortemente. Reascendeu o meu impulso criativo e usufruiu integralmente dele. Dediquei-me de corpo e alma ao Teatro. Foram, ao longo destes três anos e meio, oito montagens teatrais, com muitas histórias, muitas amizades, muitas alegrias e algumas poucas tristezas.
Durante todo este tempo, a vontade de escrever era forte. Porém faltava tempo, faltava tranqüilidade para transcrever o que passava pela minha mente. Eu corria de um lado para o outro, de compromisso para compromisso, enquanto textos inteiros montavam-se na minha mente: no trânsito, no trabalho, no chuveiro ou momentos antes de dormir. As idéias surgiam, desenvolviam-se, estruturavam-se e morriam logo depois por não encontrarem um pedaço de papel, uma oportunidade de serem registradas.
No final de maio, encerrei minha participação na oitava montagem teatral. Esgotado, achei que era o momento de dar um tempo para mim, de fugir da correria insana na qual meus dias tinham se convertido, de aproveitar várias coisas da vida, era o momento de me permitir pequenos prazeres.
Um mês depois, no último dia de junho do ano de 2006, me encontro aqui, sentado na frente do meu computador escrevendo este texto. Talvez seja o primeiro de muitos. Talvez seja um filho único que irá morrer sem descendência. Neste exato momento eu não quero pensar nisso, não quero me preocupar com o futuro. Só quero me deleitar e aproveitar o prazer que tenho em ver as palavras surgirem à minha frente.
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